Agora é chegada a hora de comentarmos sobre o Mestre de RPG.
O que é? O que faz? Qual a
verdadeira função desse jogador que merece esse título tão pomposo?
O Mestre, na verdade, nada
mais é que um jogador como os outros, com mais liberdades, mas, ao mesmo tempo,
com muito mais responsabilidades.
Um típico grupo de RPG: o mestre é, geralmente, o centro das atenções. |
Para fazermos uma comparação
vou continuar utilizando-me dos exemplos que citei em posts anteriores. No caso
utilizar-me-ei do exemplo de uma peça de teatro. Como eu disse anteriormente, o
RPG pode ser descrito como uma peça teatral onde não existe roteiro, e os
atores (os nossos jogadores) vão criando as falas a medida que a história se
desenrola. Nesse conceito, podemos comparar o mestre com o diretor da peça. Em
uma peça normal, o diretor coordena os atores, os contrarregras e todo o
pessoal para que a história siga seu rumo. No RPG é a mesma coisa: o mestre coordena
os jogadores, diz onde os seus personagens estão, o que estão vendo e sentindo
e descreve como são as pessoas e, no caso do jogo, inimigos que eles encontram.
Na mesa, apenas lápis, borrachas e papéis! Na imaginação, guerreiros, magos e dragões! |
Na peça verdadeira, o
diretor diz onde cada ator deve ficar e define iluminação e cenários (as
chamadas marcações dos atores). No RPG, acontece algo semelhante: é o mestre
quem descreve o cenário (“Vocês estão diante de um castelo!”), descreve o clima
(“São mais ou menos seis horas da tarde, o dia está frio e começa a
escurecer!”) e descreve o que os personagens encontram (“De repente, do alto
das muralhas do castelo, um soldado de lança e armadura pergunta: ‘Quem são
vocês e o que querem na cidade de Nottingham?’”).
A partir das descrições e
informações do mestre, os jogadores vão continuar a história, de acordo com o
modo que seus personagens foram criados (“o jogador que interpreta Robin Hood
disfarçado diz para o guarda: ‘Somos apenas camponeses querendo um lugar para dormir...
’”).
"Vocês estão diante dos portões da fortaleza! O que vocês farão?" Frase muito usada por qualquer mestre de RPG. Arte da ilustração: Ted Nasmith, "Winterfell" de Song of Ice and Fire. |
Numa peça teatral, cada
personagem será interpretado por um ator. No RPG é um pouco diferente: desde o
camponês que colhe trigo nos campos até o rei no trono do reino, passando pelos
bandidos de beira de estrada, pelas mocinhas que atendem na taverna ou pelos
soldados que guardam o palácio, todos serão interpretados pelo mestre. É uma
função difícil e de estrema responsabilidade, mas é muito gratificante pois, enquanto
os jogadores representam sempre um único personagem, o mestre tem a sua
disposição vários personagens diferentes. Sejam bons, maus, neutros,
importantíssimos na história ou apenas coadjuvantes, todos estarão sob a
responsabilidade dele. E não apenas os personagens como tudo o que acontece na
sessão de jogo.
"Quero que façam assim, assim e assim..." O mestre, quero dizer, diretor, coordena os atores para o início do espetáculo! |
O mestre é quem cria a
aventura que os jogadores irão viver. Ele define os vilões, cria mapas e
armadilhas para os heróis enfrentarem, descreve e interpreta os monstros e tudo
o mais que possa haver na história. Se o RPG fosse um videogame, o mestre seria
o computador, o console que cria as imagens dos cenários e dos inimigos a serem
vencidos.
Quando jogam RPG, os
RPGistas viajam para um mundo de fantasia e imaginação. Pois bem, o mestre tem
a função de “ser” esse mundo. Algo só é verdade ou mentira dentro desse cenário
se o mestre quiser. Ele pode definir que está chovendo ou está um dia
ensolarado, que um meteoro caiu na terra ou que um terremoto pegou os jogadores
desprevenidos quando eles saíram da cidade. Pode definir que vacas voam e que
ratos possuem veneno como cobras, ou seja, não tem nenhuma limitação ao criar o
seu mundo de RPG. Nem mesmo as regras do sistema de jogo são limitações para o
mestre. Ele pode definir quais regras ele quer e quais ele não quer. Pode até
mesmo inventar regras que não estão nos livros básicos.
Você que está lendo agora e
já leu posts anteriores irá se perguntar: “Mas espera aí, não eram as regras
que tornavam o RPG um jogo de imaginação ‘diferente’? Se o tal mestre não
precisa seguir as regras, voltamos às brincadeiras de policia e ladrão,
certo?”.
A resposta é sim e não,
porque um bom mestre deve conhecer todas as regras do sistema que ele usa, e só
retirar regras ou inventar novas se isso for contribuir para a diversão de todos,
não apenas a sua. Em um jogo de RPG, o mestre deve ser totalmente imparcial e
nunca jogar contra os outros jogadores, pois esses mesmos jogadores não
teriam a menor chance contra ele (lembra-se do caso do meteoro e do terremoto
que citei cima?).
Mestre dos Magos: uma alegoria do que seria um mestre de RPG! Ele não realizava as missões para os personagens, apenas os encaminhava para seus destinos. |
Só que, se um mestre “rouba”
no jogo para fazer o grupo de jogadores sempre falhar em sua missão, ou sempre
morrer ao enfrentar os inimigos, ele não é um bom mestre e logo vai ficar sem
jogadores. E não importa o quão inteligente ou criativo o mestre é: sem
jogadores, não há jogo, assim como não existe jogo sem o mestre: é tudo um
trabalho de cooperação.
O RPG é um jogo onde os participantes
contam histórias juntos e, se a função dos jogadores é criar heróis valorosos e
corajosos, a função do mestre é criar vilões e desafios dignos desses heróis. Por
exemplo, mesmo sabendo quem vai ganhar no final, quem ia querer assistir a um
filme do Batman onde ele não enfrentasse um grande vilão como o Coringa ou o
Espantalho? Do mesmo modo, quem ia querer comprar um jogo de videogame onde
você não tem a mínima chance de ganhar, mesmo que seja o melhor jogador do
mundo?
O mestre tem a função de
criar “Coringas” e “Espantalhos” desafiadores para enfrentarem os seus
jogadores, mas, no final, os heróis é que devem vencer.
Com isso, todos os jogadores ganham, pois
o objetivo do RPG, no final das contas, é “contar histórias”, e uma história
que fala da luta entre heróis e vilões interessantes é sempre uma ótima
história para ser contada.